Publicação destinada à psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e estudantes  
Tema: Psicologia Clínica 4.0 > Texto: 09  


Por Alexandre Liber  
07 de Fevereiro de 2025  

 

Mais do que uma mera ferramenta auxiliar, a IA está promovendo MUDANÇAS ESTRUTURAIS que ultrapassam a tradicional relação entre profissional e paciente. Considerando ainda o Capítulo 3 do guia da OMS, dentre essas transformações destacam-se QUATRO GRANDES TENDÊNCIAS: (1) a evolução do papel do paciente na gestão do próprio cuidado, (2) a transição do atendimento hospitalar para o domiciliar, (3) a ampliação do uso da IA fora do sistema formal de saúde e (4) sua aplicação na alocação e priorização de recursos. Evidentemente, cada uma dessas mudanças traz consigo desafios éticos e implicações significativas que precisam ser cuidadosamente analisados.

A AUTONOMIA DO PACIENTE tem ganhado novos contornos com a IA, especialmente no gerenciamento de doenças crônicas, como diabetes e condições cardiovasculares. Ferramentas como assistentes virtuais, aplicativos de autogestão e dispositivos inteligentes permitem que indivíduos monitorem sua saúde de maneira mais ativa e personalizada. Entretanto, essa descentralização do cuidado pode gerar uma sobrecarga para alguns pacientes, aumentando a ansiedade e dificultando o acesso a serviços formais de saúde. Além disso, surge a necessidade de regulamentação clara para distinguir entre aplicativos de bem-estar e dispositivos médicos, garantindo que essas soluções sejam seguras e eficazes.

A TELEMEDICINA e o MONITORAMENTO REMOTO ganharam um impulso expressivo, consolidando a transição do atendimento hospitalar para o ambiente domiciliar. A pandemia da COVID-19 acelerou essa transformação, levando à adoção massiva de consultas virtuais e ao desenvolvimento de dispositivos que acompanham sinais vitais em tempo real. Essa mudança não apenas amplia o acesso ao atendimento médico, mas também reduz a pressão sobre hospitais e clínicas. No entanto, a crescente dependência de algoritmos e automação na assistência remota levanta preocupações quanto à privacidade dos dados coletados e à qualidade do suporte fornecido pelos sistemas de IA.

Outra tendência marcante é a EXPANSÃO DO USO DA IA PARA ALÉM DOS LIMITES TRADICIONAIS DO SISTEMA DE SAÚDE. Aplicações voltadas para a saúde mental já são comuns em escolas, locais de trabalho e plataformas digitais, promovendo intervenções acessíveis e personalizadas. A disseminação dessas soluções, entretanto, impõe desafios sobre a regulamentação e proteção de dados, além de exigir maior transparência quanto à eficácia dessas abordagens. A crescente coleta de informações biométricas – por meio de wearables e sensores conectados – amplia ainda mais o debate sobre biossegurança e uso ético das informações sensíveis dos usuários. Vale mencionar que wearables são dispositivos eletrônicos vestíveis que registram e monitoram informações sobre o corpo ou o ambiente. Eles podem ser usados como acessórios – tais como óculos, pulseiras, relógios e pendentes) ou roupas, tornando-se assim uma extensão do corpo humano.

Por fim, a IA está desempenhando um papel fundamental na GESTÃO E DISTRIBUIÇÃO DE RECURSOS em sistemas de saúde sobrecarregados. Modelos preditivos podem auxiliar na priorização de pacientes em filas de espera, otimizar o uso de leitos hospitalares e até orientar a distribuição de vacinas em períodos de escassez. Apesar de sua eficiência, essas decisões automatizadas devem ser conduzidas com rigor ético, evitando discriminações e garantindo que os critérios utilizados sejam justos e transparentes.

A revolução da IA na saúde está apenas começando, e seu impacto será tão positivo quanto os esforços empregados para garantir sua aplicação responsável. A interseção entre inovação tecnológica e princípios éticos deve ser o norte para um futuro onde a inteligência artificial atue como aliada na promoção de um cuidado mais acessível, eficiente e humano.


Referência:

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Ethics and governance of artificial intelligence for health: WHO guidance. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/341996/9789240029200-eng.pdf?sequence=1 . Acesso em: 07 fev. 2025.